# A Mulher e a Cerveja

> As mulheres sempre tiveram um papel importante na história da cerveja. Temos referências disso em várias culturas. Na Babilônia e na Suméria, por volta do ano…

Fonte: https://ocaneco.com.br/a-mulher-e-a-cerveja/
Publicado em 2015-07-20.

[Imagem: Fotografia antiga em sépia de uma mulher bebendo diretamente de uma garrafa, em um campo]

As mulheres sempre tiveram um papel importante na **história da cerveja**. Temos referências disso em várias culturas.

Na Babilônia e na Suméria, por volta do ano 4.000 a.C., as mulheres cervejeiras (S_abtiem_) tinham grande prestígio e eram consideradas pessoas especiais, com poderes quase divinos.

Produzir **cerveja** era uma atividade caseira, assim como fazer pão e cozinhar. Assim, enquanto os homens saíam para caçar, guerrear ou trabalhar, cabia às mulheres preparar as comidas e bebidas da família. Como os ingredientes do pão e da **cerveja** são os mesmos, era comum prepará-los simultaneamente.

Até o século XVI, na região norte da Alemanha, os utensílios para produção de **cerveja** faziam parte do enxoval das noivas.

No século XIX, na província de _Mecklembourg_, ainda era tradição que a recém-casada recitasse:

“_Meu Deus, ajude a cerveja quando eu a produzir, ajude o pão quando eu o amassar_”.

Em algumas culturas a **cerveja** era considerada mágica ou divina e, talvez por causa da maternidade, a mulher sempre esteve associada a essa capacidade de transformar cereais em alimentos:

> Segundo uma lenda escandinava, o guerreiro morto em combate conseguiria a imortalidade se tivesse bebido **cerveja feita pelas Valquírias**.
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> Entre os vikings, era lei que somente as mulheres podiam **produzir cerveja**, e todo o equipamento usado para esse fim era propriedade exclusiva da cervejeira.
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> Na cultura inca, antes de serem oferecidas em sacrifício ao deus Sol, as virgens preparavam para o Imperador uma **cerveja de milho**, chamada chicha.
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> Catarina, mulher de Martinho Lutero, o pai da Reforma Protestante, era **famosa cervejeira**, tendo aprendido o processo de fabricação em um mosteiro.
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> Na Idade Média, uma **boa cervejeira era tida em alta conta**: o rei _Alreck de Hordoland_ escolheu _Geirheld_ para ser rainha não por aparência ou por seu dote, mas porque era famosa por seus dons cervejeiros.
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> Na Inglaterra, as **boas esposas cervejeiras** eram tão populares que muitas pessoas iam até suas casas para aproveitar a hospitalidade regada a vários copos da bebida.

Registros do século XII, de uma pequena cidade inglesa, mostram que somente **8% dos cervejeiros locais eram homens**. Além disso, como era permitido vender o excedente de produção, as senhoras começaram a explorar suas habilidades como um negócio que se tornou um importante complemento financeiro para a família.

Para anunciar que a **cerveja** estava pronta, elas expunham na porta da casa uma haste com folhas verdes – um sinal aos interessados – , recriando assim as famosas tabernas cervejeiras introduzidas pelos romanos séculos antes naquele país. Essas mulheres eram chamadas de _alewises_.

Um documento de 1086, o _Norman Domesday Book_, registra a existência de 43 dessas tabernas na Inglaterra. No início do século XIV já havia uma para cada 12 habitantes.

Durante a colonização da América, as mulheres continuaram a **fazer cerveja** como um complemento alimentar importante. Ela acompanhava os pra tos de caça, geralmente muito salgados e defumados.

Como parte das cerimônias de núpcias, as amigas se reuniam para preparar uma **cerveja especial** – _bride-ale_ – e a vendiam para arrecadar dinheiro para a noiva. Essa tradição ainda sobrevive em várias regiões americanas.

[Imagem: Mulheres marchando à noite com cartazes We Want Beer 1933, em protesto pelo fim da Lei Seca]

Em _Aberdeen_, na Escócia, uma lista de **cervejeiros locais** mostra que todos os **159 existentes eram mulheres**. Na mesma época, eram 300 em Edimburgo. A atividade representava a independência financeira das mulheres em relação aos maridos, o que acabou provocando reações moralistas ao final do século XVI, com leis que restringiam essa prática.

O **domínio feminino na produção cervejeira** só diminui no final do século XVIII, quando o “_negócio_” da cerveja despertou a presença masculina e grandes empresas surgiram, iniciando-se a produção em grande escala.

**Judith M. Bennett,** professora de história da _University Southern California_, é autora do livro _Ale, Beer and Brewsters in England_, no qual aborda exclusivamente a ascensão e a queda da importância da mulher na indústria cervejeira entre os anos de 1300 a 1600. A autora constatou a coincidência entre a **chegada das cervejas com lúpulo e a queda da importância das mulheres no processo de produção** e comercialização da bebida. Esse paralelo é inevitável, considerando-se que a **cerveja tradicional** do Reino Unido, a Ale, não continha lúpulo.

A chegada das [cervejas lupuladas](https://ocaneco.com.br/o-que-e-lupulo/), vindas da Alemanha, chamadas de _Beer_, trouxe consigo não só o ingrediente novo, mas novas técnicas de fabricação. Simultaneamente, ocorria um _boom_ no mercado da bebida. Conlcui-se daí que a preponderância masculina passou a ocorrer em virtude da associação do homem às novas tecnologias ou à comercialização, uma vez que os conceitos vigentes à época não consideravam as mulheres aptas a absorver novas tecnologias e a habilidade comercial era considerada uma caracterítica masculina.

As mulheres só reassumiriam seu importante papel na **cultura cervejeira** durante a Primeira Grande Guerra, a fim de suprir os soldados nas frentes de batalha, e posteriormente, no final do século XX, como **profissionais cervejeiras** e como **consumidoras exigentes**.

Hoje a mulher tem especial destaque nos estudos de mercado das cervejarias. Atentos às mudanças de hábitos da sociedade, em especial à crescente participação feminina no consumo da bebida, os responsáveis pelas decisões de marketing têm proposto mudanças significativas nas campanhas e no perfil de novos produtos.

Ganha força a mensagem **feminina, sutil e sofisticada**, em detrimento da imagem “machista” e competitiva.

_Fonte de referência: Larousse da Cerveja / Ronaldo Morado – Editora Lafonte Ltda, 2009_
